Foi ontem.
Pois, é, eu devia ter postado antes, mas não rolou. Enfim, o importante é que pela primeira vez na história pudemos assistir a uma transmissão ao vivo [mesmo] do MET, no cinema, em alta definição (ok, média-alta), junto com o público de algumas dezenas de países. Essa transmissão foi a da matinê do sábado, a terceira récita do Rhinegold, que estreou no dia 27 de setembro. O preço do ingresso, de R$ 60,00, equivale ao de uma performance ao vivo no nosso Teatro Municipal, mas é pouco provável que o Bryn Terfel venha cantar no ciclo do Anel tão cedo por aqui. As fotos da Gala de abertura da temporada 2010/2011 (com ingressos custando até US$ 1400,00) você pode ver abaixo:
 |
| Deborah Voight entrevistando o diretor Robert Lepage. | | |
 |
| Patrick Stewart, impecável no seu tuxedo. |
 |
| Meg Ryan no tal do 'tapete vermelho' (onde?) |
 |
| Eva Wagner-Pasquier, figura importante no universo wagneriano. |
As verdadeiras estrelas, é claro, foram os artistas que conceberam esse espetáculo, o primeiro da tetralogia de Wagner, e que estará completa somente em 2012, depois da estréia de Die Walküre no ano que vem e de Siegfried e Gotterdämmerung em seguida.
A equipe de criação inclui o veteraníssimo James Levine (completando 40 anos na casa) e Robert Lepage, célebre diretor canadense, que trouxe uma visão de certa forma tradicional na concepção cênica, e se apoiou fortemente nos recursos visuais para traduzir o drama musical longo e complexo de Wagner. Como diria William Berger, estamos passando da era dos encenadores para a era dos designers como as figuras de ponta nas montagens operísticas, e este caso é exemplar. A cenografia que serve de base para o universo desenhado por Lepage para as quatro peças, da qual tivemos apenas uma amostra na tarde de ontem, se mostrou o centro das discussões que circularam pela internet nas últimas semanas. Pesando quarenta e cinco toneladas e demonstrando uma apurado nível técnico, as plataformas pivotantes deram um show à parte, em combinação com as projeções, que eram renderizadas ao vivo utilizando o som da orquestra e dos cantores como ponto de partida. Esse recurso ja tinha sido utilizado na montagem do Anel de Valência (veja
aqui), mas o resultado é bem mais ´sutil´ no conjunto da obra. A comparação com a produção de Carlos Padrissa também se aplica aos sistemas de suspensão dos cantores e dublês, mas tudo é um pouco mais low-profile, o que ajudou a não sufocar a performance dos atores/cantores. Um exemplo é a primeira cena, com o surgimento das filhas do Reno:

Embora a linguagem não seja exatamente minimalista, a utilização desse sistema único de design da cena, que se transforma por meios tecnológicos utilizando recursos pictóricos abstratos, está há anos-luz do efeito naturalista da produção anterior do Anel do MET, de Otto Schenck, aposentado depois de vinte e poucos anos. O custo de tudo isso, cerca de U$ 16.000.000,00, não é baixo, mas é apenas a metade do que foi gasto recentemente em Los Angeles por Achim Freyer. A relação custo-benefício, portanto, parece ser boa. O espetáculo é opulento sem ser avassalador, mantendo o equilíbrio entre a importância da partitura, da atuação dos intérpretes, do fluxo narrativo e do design, ou seja, o gesamkunstwerk. Os tradicionalistas devem estar se corroendo de ódio mesmo assim, mas paciência.
 |
| Acho que dá pra perceber nesta foto do ensaio técnico a complexidade dos equipamentos de mecânica cênica, efeitos especiais, de iluminação e mídia, controlados por dezenas de computadores. |
 |
| Eric Owens em atuação brilhante como o anão Alberich. Um destaque entre grandes interpretações na tarde de ontem, com um elenco impecável, sem nenhuma falha. Nota-se o cuidado com os detalhes em cada cena, e como a preparação do espetáculo foi cuidadosa. |
 |
| Sou suspeito pra falar do Bryn Terfel porque sou seu fã faz muitos anos, mas ele tem enorme presença cênica sua caracterização é excelente para apresentar o difícil papel de Wotan - que será posto à prova, principalmente, na Die Walküre. |
 |
| A cena do Nibelheim. Percebe-se que a presença do grande aparato cênico não estrangula o espaço de movimentação dos intérpretes, mas também não passa batido. |
 |
| A cena da primeira transformação de Alberich é excelente, com o nível certo de tensão dramático-cômica. |
 |
| James Levine recebe os aplausos do público, merecidamente. Seu profundo conhecimento da partitura e do espírito da obra de Wagner permitiram que a orquestra soasse magnificamente, sem, entretanto, aniquilar as linhas cantadas. |
 |
| O Metropolitan, uma casa sempre em destaque no panorama operístico, internacional estava especialmente em festa nessa ocasião histórica. |
 |
| O público novaiorquino pode acompanhar a estréia ao vivo, na Lincoln Square e em Times Square, mas as condições (chuva e frio na cidade) estavam longe de ser ideais. Melhor ter assistido alguns dias depois, no conforto de uma sala de cinema. |
Destaque deve ser dado ao cuidado na preparaçao da versão brasileira da projeção, com comentários pertinentes do compositor e crítico Rodolfo Valente e ótimas legendas (que insistiam em substituir a palavra 'fabricação' por 'falsificação', mas esse é um detalhe bobo).
As transmissões ao vivo do MET continuam com Boris Godunov no dia 23 e, esperamos, pelo resto da temporada. Infelizmente ainda não podemos ver a transmissão da Carmen na produção de Calixto Bieito direto de Barcelona, mas pelo jeito as coisas estão melhorando para o público brasileiro de ópera.
.
Caros autores, boa tarde. Peço licença para comunicar um trabalho que pode ser interessante aqui também. Trata-se de “Nixon na China” (de John Adams), transmitida do Met Opera NY para as telas do Brasil, inclusive, no dia 12 de Fevereiro (às 16h), exclusivamente nos cinemas.
ReplyDelete___
“Produção criada originalmente para a English National Opera, 'Nixon na China' estreou em 1987 em Houston, e leva para o palco o encontro entre o presidente norte-americano e Mao Tsé-Tung, na China Comunista, em 1972 – um evento verdadeiramente mitológico na história moderna.”
Acredito que muitos leitores irão apreciar esta notícia. Caso queiram entrar em contato comigo para esclarecer quaisquer dúvidas, meu e-mail é socialmedia@mobz.com.br
Abraços,
Rafael Queres – LiveMOBZ
http://www.mobz.com.br
http://www.youtube.com/watch?v=aCvzGsyjP-I