Sunday, 10 October 2010

Das Rheingold ao vivo do MET

Foi ontem.

Pois, é, eu devia ter postado antes, mas não rolou. Enfim, o importante é que pela primeira vez na história pudemos assistir a uma transmissão ao vivo [mesmo] do MET, no cinema, em alta definição (ok, média-alta), junto com o público de algumas dezenas de países. Essa transmissão foi a da matinê do sábado, a terceira récita do Rhinegold, que estreou no dia 27 de setembro. O preço do ingresso, de R$ 60,00, equivale ao de uma performance ao vivo no nosso Teatro Municipal, mas é pouco provável que o Bryn Terfel venha cantar no ciclo do Anel tão cedo por aqui.  As fotos da Gala de abertura da temporada 2010/2011 (com ingressos custando até US$ 1400,00) você pode ver abaixo:



Deborah Voight entrevistando o diretor Robert Lepage.




Patrick Stewart, impecável no seu tuxedo.


Meg Ryan no tal do 'tapete vermelho' (onde?)



Eva Wagner-Pasquier, figura importante no universo wagneriano.




As verdadeiras estrelas, é claro, foram os artistas que conceberam esse espetáculo, o primeiro da tetralogia de Wagner, e que estará completa somente em 2012, depois da estréia de Die Walküre no ano que vem e de Siegfried e Gotterdämmerung em seguida.

A equipe de criação inclui o veteraníssimo James Levine (completando 40 anos na casa) e Robert Lepage, célebre diretor canadense, que trouxe uma visão de certa forma tradicional na concepção cênica, e se apoiou fortemente nos recursos visuais para traduzir o drama musical longo e complexo de Wagner. Como diria William Berger, estamos passando da era dos encenadores para a era dos designers como as figuras de ponta nas montagens operísticas, e este caso é exemplar. A cenografia que serve de base para o universo desenhado por Lepage para as quatro peças, da qual tivemos apenas uma amostra na tarde de ontem, se mostrou o centro das discussões que circularam pela internet nas últimas semanas. Pesando quarenta e cinco toneladas e demonstrando uma apurado nível técnico, as plataformas pivotantes deram um show à parte, em combinação com as projeções, que eram renderizadas ao vivo utilizando o som da orquestra e dos cantores como ponto de partida. Esse recurso ja tinha sido utilizado na montagem do Anel de Valência (veja aqui), mas o resultado é bem mais ´sutil´ no conjunto da obra. A comparação com a produção de Carlos Padrissa também se aplica aos sistemas de suspensão dos cantores e dublês, mas tudo é um pouco mais low-profile, o que ajudou a não sufocar a performance dos atores/cantores. Um exemplo é a primeira cena, com o surgimento das filhas do Reno:
















       



Embora a linguagem não seja exatamente minimalista, a utilização desse sistema único de design da cena, que se transforma por meios tecnológicos utilizando recursos pictóricos abstratos, está há anos-luz do efeito naturalista da produção anterior do Anel do MET, de Otto Schenck, aposentado depois de vinte e poucos anos. O custo de tudo isso, cerca de U$ 16.000.000,00, não é baixo, mas é apenas a metade do que foi gasto recentemente em Los Angeles por Achim Freyer. A relação custo-benefício, portanto, parece ser boa. O espetáculo é opulento sem ser avassalador, mantendo o equilíbrio entre a importância da partitura, da atuação dos intérpretes, do fluxo narrativo e do design, ou seja, o gesamkunstwerk. Os tradicionalistas devem estar se corroendo de ódio mesmo assim, mas paciência.



   
Acho que dá pra perceber nesta foto do ensaio técnico a complexidade dos equipamentos de mecânica cênica, efeitos especiais, de iluminação e mídia, controlados por dezenas de computadores. 




Eric Owens em atuação brilhante como o anão Alberich. Um destaque entre grandes interpretações na tarde de ontem, com um elenco impecável, sem nenhuma falha. Nota-se o cuidado com os detalhes em cada cena, e como a preparação do espetáculo foi cuidadosa.


















Sou suspeito pra falar do Bryn Terfel porque sou seu fã faz muitos anos, mas ele tem enorme presença cênica sua caracterização é excelente para apresentar o difícil papel de Wotan - que será posto à prova, principalmente, na Die Walküre.



A cena do Nibelheim. Percebe-se que a presença do grande aparato cênico não estrangula o espaço de movimentação dos intérpretes, mas também não passa batido.

 

A cena da primeira transformação de Alberich é excelente, com o nível certo de tensão dramático-cômica.


 
James Levine recebe os aplausos do público, merecidamente. Seu profundo conhecimento da partitura e do espírito da obra de Wagner permitiram que a orquestra soasse magnificamente, sem, entretanto, aniquilar as linhas cantadas.




O Metropolitan, uma casa sempre em destaque no panorama operístico, internacional estava especialmente em festa nessa ocasião histórica.





 
O público novaiorquino pode acompanhar a estréia ao vivo, na Lincoln Square e em Times Square, mas as condições (chuva e frio na cidade) estavam longe de ser ideais. Melhor ter assistido alguns dias depois, no conforto de uma sala de cinema.



Destaque deve ser dado ao cuidado na preparaçao da versão brasileira da projeção, com comentários pertinentes do compositor e crítico Rodolfo Valente e ótimas legendas (que insistiam em substituir a palavra 'fabricação' por 'falsificação', mas esse é um detalhe bobo).

As transmissões ao vivo do MET continuam com Boris Godunov no dia 23 e, esperamos, pelo resto da temporada. Infelizmente ainda não podemos ver a transmissão da Carmen na produção de Calixto Bieito direto de Barcelona, mas pelo jeito as coisas estão melhorando para o público brasileiro de ópera.



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Wednesday, 25 August 2010

Robert Lepage | Ex Machina e o Der Ring des Nibelungen em Nova York




E já que só se fala em Richard Wagner ultimamente, tenho que dizer que estou profundamente satisfeito por ser o possuidor de um wonka golden ticket INGRESSO PARA A DIE WALKÜRE NO MET! Direção de Robert Lepage! O Rhinegold estréia agora em Setembro, no dia 27 (ainda existem alguns ingressos à venda para a Gala opening night a partir de US$675, mais o aluguel do smoking), mas o resto já está tudo esgotado. Como não vai dar pra ver o Rhinegold (ou o Siegfried... ou o Götterdämmerung... pelo menos por enquanto) vamos de Die Walküre mesmo, que é uma das melhores partes do ciclo e tem o bônus da participação do Jonas Kaufmann, além de Bryn Terfel no papel de Wotan. Ou seja, só faltam oito meses para eu ver o Bryn Terfel ao vivo no seu melhor papel! Isso se ele não cancelar na hora, é claro (bate na madeira).

Acima a única foto liberada até agora no site do Ex Machina, e, abaixo, o vídeo de apresentação do projeto.

video



Ah, e o meu ingresso, não pude resistir :-)

Friday, 20 August 2010

Sobre blogs, festivais e ópera pela web




Verão na Europa é sinônimo de... Festivais de ópera, claro! E mesmo pra você que, como eu, está longe do eixo Aix-en-Provence-Salzburg-Bayreuth, não é difícil acompanhar os últimos acontecimentos da cena teatral. Para isso basta ter um acesso de banda larga e tempo para desfrutar os links que você vê nesta página. Aqui na coluna da direita sempre coloco os blogs que eu considero os mais bacanas e informativos, e outros vão ser adicionados em breve. O Intermezzo é baseado em Londres, o Opera Cake em Paris, o Opera Chic em Milão e o Opera Rocks é do tenor Andrew Richards, que traz informações frescas dos bastidores dos palcos internacionais nos quais ele atua. As grandes vantagens da web são o imediatismo das informações, que não seria possível de conseguir através da mídia impressa, e a independência editorial de cada blog.

Mas a grande novidade deste ano é a transmissão, em tempo real, da Die Walküre diretamente do Festspielhaus! Se você espera há quase dez anos pela sorte grande de conseguir um ingresso para ver Wagner em Bayreuth, esta é sua grande chance. A experiência completa, mesmo com o patrocínio da Siemens, não sai de graça. Custa €14.90, quase o mesmo preço do ingresso mais barato na platéia do teatro, mas pelo menos não é preciso esperar até 2020, inclui um chat ao vivo com os outros webviewers ao redor do mundo e até uma visita aos bastidores durante os intervalos. Não é 'the real thing' mas chega (mais ou menos) perto, em suma.

A direção musical é de Christian Thielemann
e a direção cênica de Tankred Dorst, substituindo Lars von Trier na última hora :-( essa eu queria MUITO ter visto).





Die Walküre, Bayreuth, 2010


Monday, 26 July 2010

Calixto Bieito e a ópera hardcore





O post de hoje é sobre o trabalho de um dos mais controversos diretores do cenário operístico atual, o catalão Calixto Bieito. Considerado a fina flor do Eurotrash (e provavelmente odiado por Franco Zeffireli, embora ele não se digne a proferir o nome com a iniciais CB), Bieito tem seu público, principalmente em Barcelona e na Alemanha (onde perpretou sua mais escandalosa montagem - O Rapto do Serralho de Mozart), e tem colecionado alguns sucessos - o último deles em Stuttgart, com um Parsifal considerado 'eletrizante' pelo público. Iconoclasta por princípio, Bieito não deixa pedra sobre pedra em suas produções, e, ao contrário de seu contemporâneo Carlos Padrissa (que baixou BEM o tom quando levou a linguagem do seu grupo Fura dels Baus para os teatros de ópera), não abandonou a nudez, a perversão, a mutilação, etc. Polêmica que não chegaria ao teatro dramático, acostumado com esse tipo de coisa (vide Artaud, Grotowski, Zé Celso e outros mais). Fato é que, mesmo com o surgimento cada vez maior de montagens anacrônicas (no bom sentido) e simbolistas, dirigidas por Carsen, McVicar, Sellars e outros diretores contemporâneos, o trabalho de Bieito é o mais transgressor, para o bem e para o mal.

Algumas palavras do tenor Andrew Richards, que trabalhou com Bieito recentemente (do seu excelente blog Opera Rocks):

(...) Which, I guess, was how I lasted thru the Bieito ordeal. I'm so sad to be approaching the final performance. Not to see my colleagues and friends at the opera will be hard, but harder still is the physical challenge to "Let go." The inner voices of self-doubt that plague many performers just ceased in the ordeal. There wasn't any place for them. For all of us. You just had to give yourself over to craziness. Because, come on, Calixto is NUTS! In all the right ways. I will miss him the most.

Deus abençoe os polemistas.


Obs.: O video abaixo é da TV alemã - sem legendas - mas as imagens e o tom de voz dos entrevistados falam por si mesmos.



Tuesday, 20 July 2010

Light Fantastic




Uma oportunidade imperdível pra quem procura um excelente livro sobre iluminação cênica: Light Fantastic, de Max Keller - em nova edição, de agora, abril de 2010 - está sendo vendido na Amazon com um super desconto - de US$95 por US$59,85. Este é provavelmente o melhor livro da área, principalmente para 'usuários avançados'. A resenha:

Now available in a completely revised, updated,
and expanded edition, this book is the definitive
guide to stage lighting design by a virtuoso in
the field. As beautiful as it is instructive, this award-winning book on all
aspects of theatrical lighting design has become the standard
resource in the field. Light Fantastic has received accolades
from the theater community, including the Golden Pen Award
from the Institute for Theater Technology and Outstanding
Academic Title award from Choice magazine.
Now in its third edition, Light Fantastic has been expanded to
include breathtaking new photographs from author Max
Keller s most recent productions. The text has been brought
up to date to reflect the latest technological advances, while
new essays on light in architecture, lighting for music
concerts, and the metaphysics and politics of light broaden
its scope. Keller s extensive knowledge and experience on
some of the world s most celebrated stages make him the
definitive source for veterans or those new to the field of stage
lighting. Throughout the book hundreds of vibrant color
photographs convey the excitement of live performance. This
remarkable volume is an indispensable handbook to stage
lighting design.

Novas aquisições




De tempos em tempos eu busco novos títulos para ampliar a minha - pequena e incipiente - biblioteca especializada em arquitetura teatral e congêneres. No final de semana comprei três novos livros. Compro sempre na Amazon - que é a melhor loja online para aquisição de livros importados em inglês (lembrando que livros NÃO pagam imposto de importação, e que a opção de frete internacional standard não é tão cara - se você não tiver pressa). O preview do conteúdo foi ampliado, e algumas obras têm capítulos inteiros para serem desfrutados online.

É o caso deste livro aqui:
Theatre Buildings: A Design Guide. Com uma abordagem técnica e prática, a marca da Association of British Theatre Technicians e a colaboração de um time de especialistas ingleses (os melhores do mundo, na minha modesta opinião), o livro está sendo publicado pela Routledge (a mesma editora de Architecture, Actor and Audience, de Iain Mackintosh), e parece ter um conteúdo ainda melhor que o Buildings for the Performing Arts do Ian Appleton, ou o Theatre Planning do Roderick Ham (que já tem mais de trinta anos). Os estudos de caso - 28 diferentes teatros, entre os mais importantes do mundo - são talvez mais significativos que os exemplos de George Izenour no seu livro Theatre Design - que não é mais a grande referência que foi um dia. Os capítulos incluem assuntos que estão na ordem do dia - acessibilidade e sustentabilidade, por exemplo, além de todos os aspectos dos sistemas ambientais já conhecidos: espaços serventes e servidos (incluindo áreas administrativas e técnicas, salas de ensaio, depósitos etc), projeto de palco e platéia, mecânica cênica, iluminação, eletroacústica e muito mais.

Como ainda não tenho o livro em mãos (o lançamento está sendo feito por estes dias), me baseei no que eu vi no site da Amazon. Depois que o livro chegar eu confirmo se é isso tudo mesmo - ou não.


Friday, 9 July 2010

Der Ring des Nibelungen em Valencia




O post de hoje é sobre a estupefaciente produção do Anel do Nibelungo de Wagner em Valencia, no não menos surpreendente conjunto arquitetônico projetado por Santiago Calatrava - o Palau de les Arts Reina Sofía. A montagem, dirigida por Carlos Padrisa (do grupo espanho La Fura dels Baus) utiliza os recursos de linguagem já tornados clássicos de outras produções do grupo, como a Flauta Mágica na Ruhrtrienalle em 2003, que vai merecer um post à parte. No DVD da primeira parte da tetralogia (Das Rheingold) vem esse trailer + galeria de imagens. Do mesmo DVD, que pode ser encontrado aqui, faz parte o making of do espetáculo.


Saturday, 3 July 2010

William Klein e O Messias de Handel




Falei da versão do Claus Guth para o Messias aqui, mas não poderia deixar de aproveitar a ocasião para citar a versão cinematográfica de William Klein (mais conhecido por seu trabalho para a Vogue estadunidense e seus ensaios fotojornalísticos). Esse filme é de 1999. Como em outros trabalhos de Klein, ele é um comentário irônico e preciso sobre questões cruciais da sociedade multi-étnica e da cultura pop, e um exemplo da influência da obra de Handel, mesmo 250 anos depois de sua morte.
Vejam a versão de Klein para o 'The trumpet shall sound', com Marc Minkowski e Les Musiciens du Louvre - aqui com o respectivo recitativo.


Thursday, 1 July 2010

Claus Guth em Viena e O Messias de Handel



Controvérsias à parte, o fato é que a produção dirigida pelo Claus Guth no Theater an der Wien em 2009 é a coisa mais interessante feita a partir de um oratório desde a Theodora do Peter Sellars em Glyndebourne, em 1996.

Comentário de um espectador (daqueles que vale a pena ler):


"For me it was very clearly a more or less straight forward story of a
guy committing suicide, not being able to withstand the burdens poised
by demands and pressures of the world in which we are all living. The
...only person knowing that this was suicide is a priest, who stages it
like a murder, so that the guy can be at least properly buried. And the
question arises whether this can be understood and whether there could
be redemption for such a deed. The answer comes from an angel like
figure, though speaking to us in a sign language. (Basically God
speaking to us and us being “blind and deaf” or not open enough to
understand his words)."



Parece interessante, não é? O DVD já está à venda no sistema pre-order (o lançamento vai ser em agosto) aqui. Um preview neste video do Youtube, com a cena do 'The trumpet shall sound'. Especialmente indicado para os fãs do David Lynch (no bom sentido - é claro).


Friday, 25 June 2010

La Traviata, Salzburg



Mais uma 'colaboração' de Anna Netrebko e Rolando Villazón, desta vez em Salzburg, com direção de Willy Decker. Não sou fã da Netrebko, mas neste caso a sua interpretação é bem competente, ou até mais que isso. O papel de Violeta é complexo e cheio de nuances, o que fica ainda mais evidente na produção de Decker, com cenografia minimalista e sentimentos à flor da pele. O Alfredo de Villazón é neurótico como ele - na medida certa para o personagem. E Thomas Hampson, que já foi um dos meus barítonos preferidos, também convence como Giorgio Germont, embora eu prefira a versão de José Van Dam em Paris - que, aliás, também é genial, e será postada aqui posteriormente, com Christine Schäfer :-D e Jonas Kaufmann. Por enquanto fiquem com o trailer da montagem em Salzburg, de 2005, que já se tornou um clássico contemporâneo.

Saturday, 19 June 2010

Royal Opera House, Covent Garden



Da série 'Meus teatros preferidos', um pequeno documentário com o backstage da ROH, em Londres, que depois da reforma completada em 2000 tornou-se um dos maiores e mais bem estruturados teatros do mundo.

Friday, 18 June 2010

Vivica Genaux em Bajazet



Minha primeira postagem - ainda em teste - é com este video, do ensaio da ópera inédita de Vivaldi, 'Bajazet', revelada por Fabio Biondi e gravada com o seu grupo, Europa Galante, e um punhado dos melhores cantores da atualidade. Aria 'Qual guerriero in campo armato' cantada por Vivica Genaux.